Place, Memory and Meaning
Born in Mem Martins, SEPHER is a multidisciplinary artist whose work is rooted in the Sintra Line and the communities along it. Over more than a decade, he has developed large-scale murals and pavement paintings, working across muralism, illustration and animation. His images bring together urban and digital art to tell stories drawn from places he knows and worlds he imagines.
In this interview, SEPHER discusses Prédios Pintados de Ouro, a mural in Tapada das Mercês that asks viewers to consider housing, belonging and the value of a neighbourhood too often seen only from a passing train.
Nascido em Mem Martins, SEPHER é um artista multidisciplinar cuja obra está enraizada na Linha de Sintra e nas comunidades que a rodeiam. Ao longo de mais de uma década, desenvolveu murais de grande escala e pinturas no pavimento, trabalhando nas áreas do muralismo, da ilustração e da animação. As suas imagens cruzam a arte urbana e a arte digital para contar histórias que partem de lugares que conhece e de mundos que imagina.
Nesta entrevista, SEPHER fala sobre Prédios Pintados de Ouro, um mural na Tapada das Mercês que convida o público a refletir sobre a habitação, a pertença e o valor de um bairro que tantas vezes é visto apenas da janela de um comboio.
Your work often responds directly to the places where it is created. How important is it to understand a neighbourhood and the people who live there before developing a mural?
I don’t think I could paint a neighbourhood I don’t understand. A wall in a place like this is never neutral. People walk past it every day; their kids grow up looking at it. If you arrive with an idea from outside and simply apply it, you repeat what has always been done to these territories: someone else deciding what they are. Most of my work is on the Sintra Line, where I grew up, so understanding the place starts long before the project. When I work somewhere I know less well, I take time to walk, listen and look at what people value and what weighs on them. The mural has to come from there.
O seu trabalho responde frequentemente aos lugares onde é criado. Até que ponto é importante conhecer um bairro e as pessoas que nele vivem antes de desenvolver um mural?
Não acho que conseguisse pintar um bairro que não compreendo. Uma parede num lugar destes nunca é neutra. As pessoas passam por ela todos os dias; os filhos crescem a olhar para ela. Se chegamos com uma ideia de fora e simplesmente a aplicamos, repetimos o que sempre foi feito a estes territórios: alguém de fora a decidir o que eles são. A maior parte do meu trabalho está na Linha de Sintra, onde cresci, por isso conhecer o lugar começa muito antes do projeto. Quando trabalho num sítio que conheço menos bem, dedico tempo a caminhar, a ouvir e a perceber o que as pessoas valorizam e o que as preocupa. O mural tem de nascer daí.
Prédios Pintados de Ouro grew out of observing Tapada das Mercês and the contrast between living in a place and simply passing through it. What first drew you to this location and its story?
The train. For many people, Tapada das Mercês is just a stop on the Sintra Line: a name on a screen, a run-down station, a few buildings seen through the window before they disappear. I’ve made that journey all my life, and I know the difference between passing through and living there. That gap is what drew me. Thousands of people cross these places every day on their way somewhere else without really seeing them. I wanted to paint something that makes the passenger look and that speaks to the people who stay.
Prédios Pintados de Ouro nasceu da observação da Tapada das Mercês e do contraste entre viver num lugar e simplesmente passar por ele. O que o atraiu primeiro a este lugar e à sua história?
O comboio. Para muitas pessoas, a Tapada das Mercês é apenas uma paragem na Linha de Sintra: um nome num ecrã, uma estação degradada, alguns prédios vistos pela janela antes de desaparecerem. Fiz esse percurso toda a vida e conheço a diferença entre passar por ali e viver ali. Foi essa distância que me atraiu. Milhares de pessoas atravessam estes lugares todos os dias a caminho de outro sítio sem realmente os ver. Queria pintar algo que fizesse o passageiro olhar e que falasse com as pessoas que ficam.
In the mural, giant figures carry buildings on their backs. Where did this image come from, and what do these figures represent for you?
The giants came from the feeling that housing is being taken away from people, piece by piece. They carry buildings on their backs because that is what accumulation looks like: homes treated as assets you collect and move around, instead of places where people live. For many families on the periphery, having a home has become a privilege. The giants are that force. But one of them does the opposite. Instead of carrying the building away, he tries to bring it back to where it belongs.
No mural, figuras gigantes carregam prédios às costas. De onde surgiu esta imagem e o que representam estas figuras para si?
Os gigantes surgiram da sensação de que a habitação está a ser retirada às pessoas, pouco a pouco. Carregam prédios às costas porque é esse o aspeto da acumulação: casas tratadas como bens que se juntam e deslocam, em vez de lugares onde as pessoas vivem. Para muitas famílias da periferia, ter uma casa tornou-se um privilégio. Os gigantes representam essa força. Mas um deles faz o contrário. Em vez de levar o prédio, tenta devolvê-lo ao lugar a que pertence.
Housing is central to Prédios Pintados de Ouro, particularly the idea of property as a form of wealth accumulation at a time when access to a home is increasingly difficult. Why did you feel this was an important subject to address now?
Because it’s the question everyone around me is asking. “If I work for a year, will I be able to pay six months of rent?” That’s a real calculation many households on the Lisbon periphery are making right now. Rents have risen far faster than wages. People who grew up in these neighbourhoods are being pushed further out or staying in their parents’ homes well into adulthood. And at the same time, there are empty buildings. I couldn’t paint this area today and look away from that.
A habitação é central em Prédios Pintados de Ouro, em particular a ideia da propriedade como forma de acumulação de riqueza numa altura em que é cada vez mais difícil ter acesso a uma casa. Porque sentiu que era importante abordar este tema agora?
Porque é a pergunta que todas as pessoas à minha volta fazem. “Se trabalhar durante um ano, conseguirei pagar seis meses de renda?” É uma conta real que muitas famílias da periferia de Lisboa estão a fazer neste momento. As rendas subiram muito mais depressa do que os salários. Pessoas que cresceram nestes bairros estão a ser empurradas para cada vez mais longe ou a permanecer em casa dos pais até bem depois de chegarem à idade adulta. E, ao mesmo tempo, há prédios vazios. Não podia pintar esta zona hoje e ignorar isso.
One of the central images is a building painted gold, inspired by an abandoned property in the area. What does the use of gold represent within the work?
Gold is value. The building that inspired it was abandoned, right there in the area. Painting it gold is a way of saying that what can return to use has value. It’s also about making people notice: there are empty houses while there are people without a home. Gold usually belongs to wealth and power. Here, it goes to an ordinary building on the periphery, one most people had stopped seeing.
Uma das imagens centrais é um prédio pintado de ouro, inspirado num imóvel abandonado da zona. O que representa o ouro nesta obra?
O ouro representa valor. O prédio que a inspirou estava abandonado, ali mesmo na zona. Pintá-lo de ouro é uma forma de dizer que aquilo que pode voltar a ser utilizado tem valor. É também uma forma de chamar a atenção: há casas vazias enquanto há pessoas sem casa. O ouro costuma estar associado à riqueza e ao poder. Aqui, é atribuído a um prédio comum da periferia, que a maioria das pessoas tinha deixado de ver.
There is a tension in the project between value and abandonment. Can art change the way we look at buildings, neighbourhoods or communities that might otherwise be overlooked?
I believe so, at least in part. Art doesn’t solve the housing crisis, and I don’t want to pretend it does. But it can change what people see. These territories have been described from the outside for decades, mostly through negative headlines. A mural stays. It becomes part of the daily landscape and slowly shifts the image people hold of a place, including the image people hold of themselves. When a neighbourhood sees itself represented with dignity and at this scale, something moves.
Há uma tensão no projeto entre valor e abandono. Pode a arte mudar a forma como olhamos para prédios, bairros ou comunidades que, de outro modo, poderiam passar despercebidos?
Acredito que sim, pelo menos em parte. A arte não resolve a crise da habitação e não quero fingir que resolve. Mas pode mudar aquilo que as pessoas veem. Estes territórios têm sido descritos de fora durante décadas, sobretudo através de notícias negativas. Um mural permanece. Torna-se parte da paisagem quotidiana e, lentamente, altera a imagem que as pessoas têm de um lugar, incluindo a imagem que têm de si próprias. Quando um bairro se vê representado com dignidade e a esta escala, alguma coisa muda.
You’ve spoken about seeing places like Tapada das Mercês for only a few seconds through a train window. How much does the difference between how a neighbourhood looks from the outside and the reality lived by its residents interest you?
A lot. Almost all of my work comes from that gap. The outside image is usually built on stigma: danger, poverty, absence. The lived reality is far more complex. There is precarity, yes, but also community, invention, culture and people solving problems every day with what they have. I grew up in Mem Martins, in Os Lírios, so I know both images well. My work tries to put the view from inside on the wall, big enough to be seen from the train.
Já falou sobre ver lugares como a Tapada das Mercês durante apenas alguns segundos pela janela de um comboio. Até que ponto lhe interessa a diferença entre a imagem exterior de um bairro e a realidade vivida pelos seus moradores?
Muito. Quase todo o meu trabalho nasce dessa distância. A imagem de fora costuma ser construída a partir do estigma: perigo, pobreza, ausência. A realidade vivida é muito mais complexa. Há precariedade, sim, mas também comunidade, inventividade, cultura e pessoas a resolver problemas todos os dias com o que têm. Cresci em Mem Martins, nos Lírios, por isso conheço bem as duas imagens. O meu trabalho tenta colocar na parede a visão de quem está dentro, suficientemente grande para ser vista do comboio.
Public art is encountered by people who may never enter a gallery or actively seek out contemporary art. Does that change how you think about communication, imagery and accessibility when creating a mural?
Completely. In a gallery, people choose to walk in. On the street, the work reaches someone going to work at six in the morning, a kid on the way to school, an older neighbour at the window. That’s my audience. So the image has to work on several levels: immediate and readable from a distance, with more layers for whoever stops and looks. I use figurative language because it lets people into the work without needing an art vocabulary. For me, accessibility means respecting the people who will live with the work every day without making the idea smaller.
A arte pública é encontrada por pessoas que talvez nunca entrem numa galeria nem procurem ativamente a arte contemporânea. Isso muda a forma como pensa a comunicação, as imagens e a acessibilidade ao criar um mural?
Completamente. Numa galeria, as pessoas escolhem entrar. Na rua, a obra chega a quem vai trabalhar às seis da manhã, a uma criança a caminho da escola, a um vizinho mais velho à janela. Esse é o meu público. Por isso, a imagem tem de funcionar em vários níveis: ser imediata e legível à distância, mas ter outras camadas para quem para e observa. Uso uma linguagem figurativa porque permite que as pessoas entrem na obra sem precisarem de um vocabulário artístico. Para mim, acessibilidade significa respeitar as pessoas que vão viver com a obra todos os dias, sem simplificar a ideia.
Your work engages with social issues without functioning simply as illustration or direct political commentary. How do you balance communicating an idea with leaving enough space for viewers to form their own interpretation?
I start from something concrete, a question or a situation people recognise. Then I translate it into symbols. The giants, the gold, the building: none of them tells you what to think. One person might see housing speculation, another a neighbour who had to leave, another simply the building they pass every morning. I like that. If a work closes off every meaning, it becomes a poster. I want people to come back to it and find something different.
O seu trabalho aborda questões sociais sem funcionar apenas como ilustração ou comentário político direto. Como equilibra a comunicação de uma ideia com a liberdade de interpretação do público?
Parto de algo concreto, uma pergunta ou uma situação que as pessoas reconhecem. Depois traduzo isso em símbolos. Os gigantes, o ouro, o prédio: nenhum deles diz ao público o que pensar. Uma pessoa pode ver especulação imobiliária, outra pode lembrar-se de um vizinho que teve de partir, outra pode simplesmente reconhecer o prédio por onde passa todas as manhãs. Gosto disso. Se uma obra encerra todos os significados, torna-se um cartaz. Quero que as pessoas voltem a olhar para ela e encontrem algo diferente.
How much dialogue is there with local residents during the development of a project like this? Have community reactions ever changed how you interpret your own work?
The dialogue is constant, even when it isn’t formal. A mural takes days on site, and people stop, ask what it is, and tell you about the building, their family, their rent. Many of those conversations end up shaping details. And once the work is finished, the community takes over its meaning. Residents have read my murals in ways I hadn’t thought of, and they were right. From that moment, the work belongs to them as much as it does to me.
Até que ponto existe diálogo com os moradores durante o desenvolvimento de um projeto como este? As reações da comunidade já mudaram a forma como interpreta o seu próprio trabalho?
O diálogo é constante, mesmo quando não é formal. Um mural exige vários dias de trabalho no local e as pessoas param, perguntam o que é, falam-nos do prédio, da família, da renda. Muitas dessas conversas acabam por influenciar pormenores. E, quando a obra está concluída, a comunidade apropria-se do seu significado. Os moradores já interpretaram os meus murais de formas que não me tinham ocorrido, e tinham razão. A partir desse momento, a obra pertence-lhes tanto quanto a mim.
Scale is fundamental in urban art. What happens to an idea when it moves from an initial sketch or concept onto the façade of a building?
It changes completely. On paper, you control everything. On a façade, the wall decides a lot: the windows, the texture, the light at different hours, the distance people will see it from, whether they are walking past or travelling by train. Some details disappear; others become enormous. You have to think of the image almost as architecture, as part of the street. Scale also changes the weight of the idea. A small drawing about housing is a comment. One the size of a building is a presence.
A escala é fundamental na arte urbana. O que acontece a uma ideia quando passa de um esboço ou conceito inicial para a fachada de um prédio?
Muda completamente. No papel, controlamos tudo. Numa fachada, a parede decide muita coisa: as janelas, a textura, a luz às diferentes horas, a distância a que as pessoas vão ver a obra, se passam a pé ou de comboio. Alguns pormenores desaparecem; outros tornam-se enormes. Temos de pensar na imagem quase como arquitetura, como parte da rua. A escala também muda o peso da ideia. Um pequeno desenho sobre habitação é um comentário. Um da dimensão de um prédio é uma presença.
Your murals often feature a strongly narrative and figurative visual language. How did you develop this language, and what role do narrative and symbolism play in your practice?
I started painting at night, without invitation or permission, on the walls of the Sintra Line. Over time, I felt the need to tell stories beyond leaving a mark. The narrative and figurative language came from there. I want people to recognise themselves in the work: their clothes, their gestures, their buildings, the train. Some symbols keep returning, like the stars, the doors and the gold, because they work as a shared vocabulary from one mural to the next.
Os seus murais apresentam frequentemente uma linguagem visual narrativa e figurativa. Como desenvolveu essa linguagem e que papel têm a narrativa e o simbolismo na sua prática?
Comecei a pintar à noite, sem convite nem autorização, nas paredes da Linha de Sintra. Com o tempo, senti necessidade de contar histórias para além de deixar uma marca. Foi daí que surgiu a linguagem narrativa e figurativa. Quero que as pessoas se reconheçam na obra: nas roupas, nos gestos, nos prédios, no comboio. Alguns símbolos regressam, como as estrelas, as portas e o ouro, porque funcionam como um vocabulário comum de um mural para o seguinte.
Your work has explored themes of memory, identity and specific urban territories. Do you see each mural as an independent work, or as part of a broader investigation into contemporary urban life?
As part of something larger. Each mural has to stand on its own, but together they form a kind of map of the Sintra Line and the Lisbon periphery. Porta do Vale speaks about invisibility, Guardiã de Abril about freedom fifty years after the revolution, Serviço Mínimo about the train, Santa Terezza and Improvisus about Os Lírios, where I grew up, and now Prédios Pintados de Ouro about housing. Memory, identity, mobility, the right to stay. It’s one ongoing investigation into what it means to live in these territories today.
O seu trabalho tem explorado temas como a memória, a identidade e territórios urbanos específicos. Vê cada mural como uma obra independente ou como parte de uma investigação mais ampla sobre a vida urbana contemporânea?
Como parte de algo maior. Cada mural tem de funcionar por si só, mas, juntos, formam uma espécie de mapa da Linha de Sintra e da periferia de Lisboa. Porta do Vale fala de invisibilidade, Guardiã de Abril da liberdade cinquenta anos depois da revolução, Serviço Mínimo do comboio, Santa Terezza e Improvisus dos Lírios, onde cresci, e agora Prédios Pintados de Ouro da habitação. Memória, identidade, mobilidade, o direito de permanecer. É uma investigação contínua sobre o que significa viver nestes territórios hoje.
Much of your practice exists outside the traditional gallery context. What does public space offer that you couldn’t achieve in a more conventional exhibition setting?
Time and presence. An exhibition lasts a few weeks and mostly reaches people who already go to exhibitions. A mural stays for years in the place it talks about, facing the people it talks about, as part of their daily life. Public space also gives the work its context: a piece about housing on a residential building, a piece about the train next to the line. And there’s something personal in it. I grew up hearing that art was for other people. Painting in the street is my way of refusing that.
Grande parte da sua prática existe fora do contexto tradicional da galeria. O que lhe oferece o espaço público que não conseguiria alcançar numa exposição mais convencional?
Tempo e presença. Uma exposição dura algumas semanas e chega sobretudo a pessoas que já visitam exposições. Um mural permanece durante anos no lugar de que fala, diante das pessoas de quem fala, como parte da sua vida quotidiana. O espaço público também dá contexto à obra: uma peça sobre habitação num prédio residencial, uma peça sobre o comboio junto à linha. E há algo de pessoal nisso. Cresci a ouvir que a arte era para outras pessoas. Pintar na rua é a minha forma de recusar essa ideia.
What would you like someone who lives in Tapada das Mercês to feel or think when encountering Prédios Pintados de Ouro as part of their everyday life?
That their place has value. That the building they pass every day, and the neighbourhood around it, deserves the same attention anyone would give a monument. I’d also like the mural to keep the question alive: why are there empty homes when so many people need one? If someone from Tapada das Mercês looks at it and feels seen, and a little less alone with that question, the work has done its job.
O que gostaria que alguém que vive na Tapada das Mercês sentisse ou pensasse ao encontrar Prédios Pintados de Ouro no seu dia a dia?
Que o seu lugar tem valor. Que o prédio por onde passa todos os dias, e o bairro à sua volta, merece a mesma atenção que se daria a um monumento. Gostaria também que o mural mantivesse viva a pergunta: porque há casas vazias quando tantas pessoas precisam de uma? Se alguém da Tapada das Mercês olhar para ele e se sentir visto, e um pouco menos sozinho com essa pergunta, a obra cumpriu o seu papel.